Cumprimentos

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A distância entre a minha casa e a vila me proporciona alguns bons momentos quando vou até lá. Em um sítio não muito distante daqui mora e trabalha um homem que eu pouco conheço, mesmo sendo quase vizinho e morando na mesma vila, tenho poucas informações sobre ele. Sua casa fica a uns cinquenta metros da estrada, depois de uma linda pastagem. Mas porque eu estou escrevendo sobre um homem que conheço tão pouco? Quando passo por aquele trajeto observo e vejo se ele está por lá, talvez cortando pasto ou descansando enquanto observa o movimento da estrada. Se o vejo, analiso se está olhando para a minha direção, ergo o braço por um ou dois segundos, enquanto espero a resposta. Mais um segundo ou dois e ele ergue o braço retribuindo as minhas saudações. Não sei o que ele sente nesses momentos, pode ser que já seja um hábito monótono responder os cumprimentos das pessoas que passam por lá, ou percebe que um jovem se preocupa em demonstrar respeito.

Observo também o sítio do outro lado da estrada, onde mora um idoso que, segundo os mais antigos, era amigo do meu pai. Já não o via há bastante tempo, mas o vi duas vezes nas últimas semanas, sempre com seu chapéu de Caubói. Na primeira vez eu estava voltando da vila quando o vi próximo ao portão lateral da casa, o cumprimentei erguendo o braço e observei para ver se ele me viu. Sua mão foi se erguendo lentamente, o peso da idade lhe impede de erguer o braço com rapidez. Outra vez o encontrei, mas ele estava distraído e não olhou para a estrada. Às vezes também cumprimento outro senhor que mora a frente do mercado, que geralmente aproveita o ar fresco da varanda para se refrescar nos dias quentes.

Na região do outro lado da vila, onde passo com muito menos frequência, há um sítio onde trabalhei a alguns anos atrás. Lá mora um senhor que me impressionou com sua popularidade, quase todas as pessoas na estrada buzinam ou erguem a mão para o cumprimentar. Quando passo por lá e vejo ele ou a esposa ao ar livre, os cumprimento e logo em seguida eles retribuem. Até mesmo quando não os vejo, ergo o braço por imaginar que estão me observando pela janela da cozinha, e eu não quero passar sem deixar meus respeitos.

Erguer o braço, um gesto simples que me dá uma descarga de adrenalina tão grande quando sou correspondido. Sinto como se estivesse prestando continência ou pedindo a aprovação de homens que viveram uma vida, construíram negócios, família, filhos, e provavelmente esperam que eu faça o mesmo, ainda melhor. Talvez alguns nem merecem os meus respeitos, podem ter sido cruéis e desonestos, mas me sentiria mal por negar algo tão simples e que me faz tão bem. Com o tempo, os braços vão ficando cada vez mais cansados, e um dia, nem se erguem mais.

29/10/22

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