Ela Sente Saudades

Existem os dias calmos, em que apesar de ela estar meio confusa, permanece conformada com sua situação. E existem os outros, em que ela sente saudades. Fica inquieta, pergunta se um dos outros filhos está por perto para levá-la para casa. Começa a juntar pequenos objetos que estão ao seu redor e guarda em alguma caixa ou bolsa para levar junto embora, ou deixar guardados para buscar em outro dia. Se levanta com a pouca força que a saúde lhe deixou, e tenta ir para casa. Geralmente é a cena que se repete ao final da tarde, em que ela se sente desconfortável e deseja ir embora. E nós vamos tentando convencê-la a ficar. “Está ficando escuro, durma aqui e vá amanhã!”, “Está chovendo, você vai se molhar!”. Tentamos lhe mostrar a realidade, mas ela geralmente está bem decidida em suas ilusões. Às vezes sai caminhando e vamos a seu lado para que ela não caia. Depois de um tempo ela cansa e os passos diminuem, e a convencemos a voltar para a casa onde ela não quer ficar. 

Ela sente saudades. Saudades da casa pequena de madeira lá naquele morro, escondida embaixo de uma ribanceira. Saudades da água cristalina que inunda o pequeno açude, e escorre livre, sem torneira no tanque. Saudades das carpas coloridas que ela chamava e alimentava com arroz. Saudades dos patinhos, alegres a andar por tudo e aproveitar a água pura do açude. Saudades do “Lustig”, o cão alegre que sempre nos ouvia de longe e vinha nos encontrar. Que a obedecia quando ela chamava: “Komm, geh nicht in die strasse!”. E que tinha um sofá só para ele na varanda. Saudades das suas rocinhas de cebolas, batatas, alho e mandioca, lá no alto do morro, onde ela subia ligeiro com sua enxadinha e a seguíamos quase sem fôlego. Do chiqueiro pequeno onde ela engordava um porco. Saudades daqueles almoços em família, do pote de balas que ela sempre oferecia. 

Saudades daquelas flores coloridas que ela cultivava com capricho, e era tão prazeroso estourar as cápsulas de sementes. Do quarto cheiroso com a prateleira cheia de vidros de conserva. Saudades daquela barragem de tijolos, onde o bote estava e meu irmão me levou para um pequeno passeio. A barragem secou e o bote apodreceu. A aventura passou a ser andar se equilibrando por cima da barragem de tijolos sem cair (um dia ela não conseguiu). Saudades dos gatos, que vinham dormir comigo às vezes quando eu dormia lá, a ouvir o barulho dos animais da noite e da água a escorrer no tanque. 

Saudades dos dias que escureciam antes lá, onde a sombra do morro bloqueia a pouca luz do entardecer. Das pedras, uma grande perto da casa, era meu percurso de escalada, e algumas partes lascadas que eram minha diversão, tentava quebrá-las em pedaços cada vez menores. Eu cresci e aquela pedra encolheu. As outras, lá no topo do morro, eram consideradas um perigo, de soltarem-se da terra e descerem rolando até a casa dela. Saudades das vezes que eu ia lá de bicicleta, com a mochila pesada, com leite, ovos e carne, ou qualquer outra coisa que ela precisasse. Saudades de soltar o pote vazio de manteiga no açude e vê-lo navegar impelido pelo vento, qual navio no oceano.

Ela sente saudades, e precisa ir. As flores precisam ser regadas e os ovos das galinhas, recolhidos. Precisa moer o milho e tratar o porco, que a essa hora deve estar pedindo comida no chiqueiro. O bando de patinhos também deve estar faminto, e as carpas, esperando que ela jogue o arroz. E o Lustig, ah, o Lustig, deve estar a esperando na estrada. Ela precisa ir, porque lá escurece mais cedo. E eu não consigo explicar que ela não precisa ir, que tudo isso já passou. “Es ist alles vorbei”.

Sim Vó, nós sentimos saudades…

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