É estranha a sensação de passar tanto tempo elaborando formas de escrever crônicas cada vez maiores, melhores, e me dar conta que faltou a boa e velha conversa fiada. Vou me esforçando para escrever sobre coisas cada vez mais importantes, sentimentais, e fazendo o possível para editar erros de ortografia ou concordância, deixando o texto “descansar”. O tempo passa e eu não tenho ideias “geniais”, com isso não faço o mais importante, que é obviamente, escrever.
Eu compliquei tanto e esqueci que a essência e simplicidade são papéis fundamentais para esse gênero literário tão sublime que é a Crônica. Parece que nós temos esse encanto secreto por coisas simples, mesmo fazendo de tudo pra complicar. Tentamos melhorar nossas cozinhas, fazendo reformas, trocando móveis, eletrodomésticos e utensílios.
Tudo muito útil, ideal e simples para o nosso dia a dia. Podemos convidar amigos e termos uma ótima refeição em um ambiente quentinho com uma mesa farta. Tudo muito bem preparado e aconchegante. Mas parece que falta alguma coisa: a fogueira. De onde vêm esse nosso fascínio por fogo e conversa fiada? Parece uma programação ancestral em nossos genes (a menos que eu seja o único que sinta isso, daí é apenas divagação minha mesmo).
Eu pensei em conversa fiada e já me veio à cabeça uma fogueira. Uma fogueira grande, porque geralmente meu amigo se esforça incansavelmente na mata em busca da lenha que for necessária para fazer uma fogueira monumental. Eu geralmente penso que seria melhor deixar a fogueira menor e economizar lenha para o restante da noite, mas a alegria dele com as labaredas de fogo me contagia, assim eu lembro que também gosto de fogueiras grandes.
De início precisamos nos sentar longe do fogo, e mesmo assim as nossas bochechas ficam quentes. O rosto queimando e as costas frias, surge a vontade de acender outra fogueira lá atrás. Depois de um tempo o fogo acalma e a lenha fica escassa, ninguém mais quer entrar na mata nessa hora da noite.
Porque em volta da fogueira parece que os amigos estão tão perto, e os problemas tão longe? Cliente caloteiro é uma lembrança vaga, problemas com a família nem se parecem mais com problemas, apenas contratempos fáceis de se resolver. Tudo pode ser resolvido amanhã, na próxima semana, no outro ano, ou então nem precisa ser resolvido mesmo. Que fique tudo assim, do jeito que está, porque essa fogueira tem um brilho tão intenso, as sombras e a luz ficam dançando, e os amigos estão perto.
O importante agora é aquela labareda pequena e fraca alcançar a lenha que foi colocada mais acima e continuar sua dança, senão só restarão as brasas e talvez teremos que recomeçar tudo de novo, ou então cada um ir para sua barraca e fazer outra fogueira de manhã. Mas a labareda fraca de algum jeito alcança a lenha, e a fogueira volta a cumprir com sua função.
De momento em momento, alguém fala que pode ter alguma onça por perto na floresta, e vamos desejando que a fogueira não apague de jeito nenhum. As conversas vão ficando um pouco escassas, talvez porque os problemas vão diminuindo, ficaram mais leves, menos importantes. A fogueira não está mais tão interessante, em algum momento da noite irá se apagar.
E por que depois disso acordamos tão leves? Renovados, olhando o céu e algumas estrelas que não tiveram tempo de se esconder. Com o passar das horas e o começo de um novo dia, os problemas vão inevitavelmente aparecendo. A fogueira apagou, mas sempre pode se acender novamente, e com ela, uma nova conversa fiada.
