Lâmpadas que queimam

Foto de cottonbro no Pexels

Uma das coisas que sempre ouvi minha avó se vangloriar, é de que seu falecido pai, meu bisavô, era um carpinteiro de mão cheia. Construía rodas d’água, moinhos, casas e vários outros artefatos de madeira. Em uma situação, fazendo rodas de carroça, um conhecido afirmou que ele não devia caprichar tanto, escolher a melhor madeira e fazer do melhor jeito que ele sabia, pois dessa forma a roda nunca iria estragar e ele não teria o trabalho novamente. Meu bisavô não seguiu esse conselho, e além de ter ganhado a confiança dos seus clientes, nunca se arrependeu de ter trabalhado da melhor forma que sabia.

Eu lembro disso quando sou obrigado a comprar bugigangas, quando uma bomba de encher pneu, depois de muitos remendos não pode mais ser usada e eu preciso ir em uma loja em que há umas três qualidades, todas do mesmo modelo que já comprei e sei que vai soltar uma peça nas primeiras vezes que eu usar. Comprar bomba de encher pneu é enxugar gelo. Nem dá mais para se vangloriar com esses bens materiais, por exemplo se exibir assim para o vizinho: “Olhe vizinho, comprei uma bomba nova!”, pois todo mundo sabe que ela durará menos de um mês.

Guarda chuva já é algo descartável, não dá mais nem para reagir a um assalto com ele, o bandido cairá nas gargalhadas e poderá ser fatal. Usar como bengala, jamais. É uma das coisas que estragam até mesmo encostadas na parede. Você chega em casa um dia com ele, encosta na parede e no outro quando pega para usar, já têm uma varinha de alumínio torta ou quebrada, ou o tecido solto. É inacreditável que alguém chegue ao ponto de roubar guarda chuvas, talvez sejam questões de sobrevivência, pois o objeto em si não vale nada, pelo menos para quem compra, não para quem vende. E o meu maior desgosto é saber que os chineses estão felizes da vida com seus guarda chuvas de bambu.

Esses dias descobri que as lâmpadas não queimam por necessidade, e sim por conspiração. Tudo em nome da economia, competições entre países e empresários, deixaram de fazer o mais durável para fazer o mais rentável. Isso é praticamente o que diz a minha “teoria do sapato”. Sim, acredito que o ser humano está se especializando em fazer espinhos mais resistentes e calçados cada vez piores. É uma frase bem boba, mas acho que você entendeu a ideia. É outra forma de dizer que essa falta de capricho industrial é um tiro no pé (ou um espinho no pé).

Sei que é “pelo bem da economia”, mas me parece um atraso fazer um produto ou serviço ruim para poder fazê-lo novamente em breve. Mas sei que esta crônica não irá mudar tanto as coisas, as lâmpadas continuarão queimando, então me resta agradecer a você, que faz o seu melhor!

26/03/22

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