Tempos atrás contrariando minha rotina, fui em uma festa grande. Não dessas gigantes, mas uma festa aqui da região, tradicional da minha cidade. Provavelmente foi o dia que eu mais vi policiais e seguranças na minha vida.
A cada passo eu dava de cara com um paredão de policiais enfileirados a olhar os transeuntes. Algumas viaturas, marcando presença para conter qualquer ato criminoso. Na entrada havia uma revista com detector de metais. Nunca antes eu tinha passado por uma revista, e mesmo sabendo que eu não precisava temer, pensava:
“E se por alguma possibilidade remota e absurda, eu sem querer e sem ter percebido ainda, estiver portando algo ilícito?” Fiquei aliviado ao descobrir junto com a polícia que eu estava apto a entrar no evento. Não precisei falar: “Não sabia que isso estava comigo! Que bom que vocês acharam! Parece perigoso andar com isso por aí!”
Tinha muita gente, vários tipos de pessoas por metro quadrado. E vez por outra, quando via o tanto de gente encarregada de conter brigas e até participar de uma possível pancadaria, me ocorria um pensamento intrusivo: “Dá um tapa na cabeça desse ali!” ou “Esbarra naquele fortão!”.
Eu sou tranquilo, e talvez por toda essa monotonia, me atrai um pouco a ideia de do nada começar uma pancadaria generalizada. Não de atrair realmente, mas é uma grande ironia, quem começa uma briga mesmo com essa possibilidade absoluta de que no final irá se tornar saco de pancada.
Como quem acorda de manhã e pensa: “Hoje eu vou pular em cima de uma viatura como se fosse uma cama elástica e voltar para casa como se nada tivesse acontecido.”
Me lembrava com frequência do vídeo em que um jovem afirmava que havia ido até a festa apenas para criar conflitos, e quem esbarrasse nele ia ter problemas. O vídeo corta para ele dentro de um carro com os amigos, com o olho roxo e lábios sangrando, sem saber como aquela fatalidade havia ocorrido.
Apesar dessas vozes irônicas se manifestarem a cada instante na minha cabeça, consegui evitar a ironia de realizar essas ações contraproducentes. E provavelmente por ter visto todo aquele esquema de segurança, durante a madrugada os meus pensamentos intrusivos foram devidamente corrigidos.
Sonhei que estava dirigindo um trator de cortar grama na estrada aqui perto e fui abordado, sem saber o porquê. Algemado e deitado de bruços por cima dos pedregulhos, sentindo a agonia de estar vulnerável e dependendo dos resultados da investigação.
Acordei muito aliviado, sem saber o desfecho do ocorrido e por qual motivo eu havia sido detido. Mas certamente foi porque alguém deixou seus pensamentos intrusivos falarem mais alto.
