Procura–se

Meu irmão, minha cunhada e eu estávamos em busca de uma pessoa especial. Pessoa esta que eu não conhecia. Tive contato em um velório, mas a idade que eu tinha na época não me permitiu gravar aquela aparência. Apenas lembrava de uma linda bengala de bambu que aquele senhor segurava entre as mãos.

Tínhamos como referências um bairro, uns nomes, um hotel, informações estas guardadas no cantinho da memória do meu irmão. Depois de rodar alguns pontos da cidade em que vários antepassados meus viveram, decidimos procurar aquele senhor espirituoso sobre o qual tanto ouvi falar.

Fomos ao bairro, achamos o hotel que serve de referência, e seguimos a estrada principal, em busca de uma casa peculiar suspensa por postes de concreto. Fomos, cada vez mais para o interior, até o ponto de o meu irmão ter a impressão de que estávamos demorando demais para achar a casa.

A solução foi pedir informações, mas não foi de muita ajuda. Voltamos até perto do hotel, onde pedimos informação em um bar. Outra vez, meia volta, alguns quilômetros pedindo informação, indo pelo caminho errado, meia volta novamente, informações em outro bar.

Até que chegamos em uma rua, curiosamente a rua havia recebido o nome do idoso. Pedimos informação, e por coincidência, encontramos a neta do senhor a quem procurávamos. Gentilmente se ofereceu para nos mostrar o caminho. Tirou o carro da garragem e foi adiante na estrada a frente de nós.

Depois de um tempo avistamos a casa suspensa e seguimos uma estradinha que subia o morro. O carro preto parou no pátio da casa e meu irmão foi até os fundos para fazer a volta. Quando descemos do carro surgiu outra mulher. Nos cumprimentou e pediu que entrássemos, quase sem acreditar quem éramos. Sentamos nas cadeiras da sala e ela foi avisar a ele que vieram visitas.

A mulher que nos mostrou o caminho voltou para casa. Esperamos um pouco e ele apareceu, a passos lentos, vestia pijama azul claro e se apoiava em um andador. Eu havia esperado anos por aquele momento. Quem estava na minha frente era o irmão da minha falecida avó. Sim, meu tio avô, essa era a surpresa, acabou o mistério. Era o homem que conheceu meus bisavós, a sobre quem eu desejava/desejo conhecer pessoalmente.

Eu não sabia como devia agir, era um momento emocionante, tinha vontade de abraça-lo e falar a ele sobre as coisas boas que passei a infância e juventude ouvindo a seu respeito. Mas apesar de estar em uma situação informal e em família, sentia os laços da formalidade. Eram desconhecidos, em um lugar desconhecido. Talvez se tivesse essa oportunidade novamente, faria melhor.

Depois de levantarmos e cumprimentá-lo com apertos de mãos, sentamos e começou-se a conversa. Creio que o primeiro assunto foi sobre o bigode do meu irmão e como ele é parecido com o nosso pai.

Eu tinha várias perguntas, meu irmão e minha cunhada sabiam disso, tanto é que pediram que eu as fizesse. Mas eu percebi que a memória dele havia sido desgastada pelo tempo e não queria forçar nada. Me sentiria mal cobrando informações de alguém que provavelmente não as tinha mais. Decidi aproveitar o momento e deixei que as pesquisas e outras circunstâncias da minha vida solucionassem aquelas dúvidas.

Essa visita foi no final de 2019, antes da pandemia. Meu tio-avô estava debilitado mas em boas mãos, sendo bem cuidado pela família. Depois veio a pandemia e não deu para voltar a vê-lo. Esses dias, nos status do meu Facebook, recebi a triste notícia, o “Onkel Ervino” (“Onkel”, tio em alemão), descansou com seus antepassados. Eu sabia que provavelmente aquela seria a última vez que eu o veria, mas ter certeza disso é devastador.

Decidi postar essa crônica, talvez para lembrar a mim mesmo o quão especial foi aquele momento.

08/10/2021

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