Ventos do Inverno

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O dia foi frio, um sinal claro do outono e mostra que o inverno está chegando. Depois de fazer alguns trabalhos dentro de casa, decidi ir caminhar no campo e juntar pinhões. Peguei uma jaqueta de pano e outra de couro, o chapéu de palha, as botas e o balde e fui. Assoviei para que as cadelas me acompanhassem, mas das duas, apenas uma apareceu. Havia poucos pinhões, e o vento era frio, misterioso. Não sei o que me agrada no frio, mas tenho uma sensação de contemplação com ele. Gosto de paisagens com cores frias, neve, pedras, rios, e me agradei das passagens registradas em livros como “O Castelo”, de Kafka, “Crime e Castigo” de Dostoievsky, e os contos de Tchekhov, paisagens e situações deprimentes e frias.

Andar pela floresta com esse vento frio me faz lembrar, assim como outras coisas, dos meus antepassados e povos antigos. Li que os índios da minha região costumavam ir para o litoral quando o inverno chegava, por ter temperaturas mais agradáveis nessa época. Costumavam, foi um dos costumes perdidos com a colonização da região. O primeiro morador europeu do município, Pedro Ermonge, conseguiu conviver por um tempo com os índios, mas depois de uma discórdia ele e seus dois sobrinhos foram ameaçados e mortos, com flechas indígenas. Na escola e em livros é apontado que os índios foram “expulsos”, para um local que hoje é a reserva do Quati. Isso ocorreu quando um grupo de colonizadores europeus chegaram, mas nunca ouvi falar se houve uma batalha ou os índios decidiram se retirar para evitar conflitos.

Meu tataravô subiu a serra com a família depois que veio da Alemanha, e abriu a primeira picada para essa direção da pequena vila. Construiu um abrigo provisório embaixo de um grande tronco de árvore, enquanto seus maiores esforços se concentravam nas lavouras. O frio me faz lembrar disso, dos índios com suas técnicas para vencer o frio e a família do meu tataravô descansando e se abrigando das geadas embaixo daquele tronco de madeira. Mas meu tataravô Josef não teve tanto sossego, a minha tataravó Apolônia repetidas vezes viajava para visitar a família dos seus pais em Corupá, região mais litorânea e provavelmente menos fria. Acredito que ela tinha uma saúde frágil e por isso o Tata Josef permitia que ela ficasse tanto tempo longe. Não os conheci, não tenho nenhuma foto deles, mas a impressão que tenho dela é de que era uma princesa.

Depois de juntar alguns pinhões, comecei a seguir o caminho para casa. Na estrada de grama uma lebre apareceu dando seus pulinhos, ao me ver pulou novamente para o capim e se escondeu. Mais adiante em uma baixada, ao observar as árvores de Pínus que eu podei a algum tempo atrás, me deparei com pinhas. Essas árvores são pelo que eu me lembre, de regiões frias, e suas pinhas são ótimas para fazer fogo e aquecer os invernos. É para mim um sinal de esperança, pois lembrei das árvores de Pinus plantadas pelo meu avô e meu pai, provavelmente vieram delas as sementes que germinaram e nasceram aqui. Lembro das vezes em que fui juntar pinhas com meu pai, embaixo das suas árvores e embaixo das que o meu avô plantou. Nenhuma daquelas árvores restou, mas fico feliz que existem novas produzindo suas pinhas. Essas são algumas das sensações que aparecem em meus invernos.

20/05/22

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