Está tudo tão digital, nossos dias são tão “conectados”. E não, eu não estou reclamando. Eu gosto de estar sentado aqui, clicando nas letras do teclado e podendo apagar tudo em um instante, sem sujar nada com tinta. Escolho a imagem ideal, faço os ajustes técnicos e “voilà”, uma crônica publicada. É simples, prático, rápido e tecnológico. Mas confesso que esta crônica eu desejava que fosse diferente. Podia estar escrevendo ela em um papel marrom e espesso, com uma caneta tinteiro que faz aquele som agradável ao riscar o papel. Minha letra é um desastre, mas eu faria um esforço, e é provável que se essas suposições fossem realidade, eu também tivesse uma caligrafia um pouco melhor.
Com tudo escrito e todas as formalidades e saudações, eu dobraria com cuidado esse papel primitivo. Colocaria em um envelope, e o selaria com um pouco de cera e o meu sinete. Ou com um selo mesmo, ambas as opções são interessantes. Agora seria o momento de uma das partes mais fascinantes: a longa viagem, e toda a logística envolvida. Eu exijo cavalos postais, muitos deles, a atravessar desertos se revezando e entregando a bolsa de couro, com outras mensagens muito mais importantes do que essa. Enfrentando assaltantes de correspondências, atravessando montanhas, até chegar a um Porto. Sim, também exijo um barco, e detalhe: um barco a vela. Que enfrentasse tempestade, motins, piratas, enquanto essa carta estivesse sequinha no porão, sendo tão protegida. Dispenso a possibilidade de naufrágio, não, essa carta não pode naufragar. E depois de avistarem terra firme, alguém colocaria essa carta em uma nova mala ou caixa, separada por localidade, e por mais um tempo ela viajaria, novamente a cavalo.
Até chegar ao seu bairro, sua rua, e em sua casa.
Você receberia, ou alguém em seu nome, e assim viria a tão esperada nova etapa: a leitura. O envelope aberto, enquanto você, caro leitor, estaria em uma varanda, sentado em uma cadeira de balanço e acompanhado por alguma bebida. Ou talvez em uma escrivaninha, com um papel novo disposto sobre ela e a caneta pronta para escrever uma resposta. E assim você leria essa carta inútil, que atravessou desertos e mares até chegar em sua residência, com total conforto, como se estivéssemos face a face conversando as futilidades da vida. Mas não é assim, e eu preciso me conformar, a lhe mandar essa carta sem tanto glamour. Mas talvez seja melhor assim, que não haja caubóis ou marinheiros dispostos a tantos perigos para entregar essa carta tão inútil. E eu continuo escrevendo outras, tão inúteis quanto esta, que mesmo digitais ainda levam um pouco de mim.
