Há vários anos meu irmão cultivou alguns pés de melancia. Em um lugar bem adubado, no declive ao lado da estrebaria. Eu ainda era criança, mas pelo que lembro, tivemos algumas oportunidades de comer melancias produzidas no próprio sítio. Um ano em que tivemos a confirmação de que é possível produzir esses frutos aqui. Um toque especial, como um “A gente também consegue!”.
Nos anos seguintes, tivemos que comprar esses frutos suculentos, mas sempre recordando que é possível cultivá-los aqui mesmo. Porém, tivemos certas desventuras ao tentar repetir o feito. Quando a gente planta, parece que sempre falta algo, e raras são as vezes em que isso não acontece.
O cultivo precisa de um afinamento pavoroso. Tudo no tempo certo, na quantia exata. Sempre sobra o risco de algo ser negligenciado e todo o resto ir por água abaixo. Na verdade, isso é o básico, um resumo de qualquer episódio do Globo Rural.
Ao longo dos anos presenciei várias dessas produções de melancia, em que sempre faltou algo. Menos, é claro, nas lavouras de quem vinha vender. E eu lembrava da possibilidade. Decidi plantar alguns pés de melancia e fazer o possível para que fosse uma boa produção.
Comprei seis mudas, pesquisei o espaçamento ideal de cada pé e fiz alguns buracos onde planejava plantar. Dentro deles, coloquei pedaços de troncos de bananeira e vários tipos de esterco e matéria orgânica.
Plantei as mudas, cerquei com alguns gravetos para proteger dos animais, e caprichei na irrigação. Quase todo dia eu ia lá e molhava a terra com afinco. Descobri que deveria ter limpado as ervas daninhas ao redor de cada pé antes de plantar. Na verdade eu fiz isso, mas rocei em vez de carpir. E o mato brotou ligeiro. Fui obrigado a ir cortando o capim com uma lâmina, para não danificar os ramos das minhas plantas de estimação.
Cuidei da poda, mas aprendi que nesse processo ainda existem muitos outros detalhes além dos que eu imaginava.
Quando não chovia, eu irrigava. Quando o mato ao redor crescia, eu cortava. E assim foi passando o tempo, e os frutos foram crescendo. Chegou a tão esperada hora, vi que uma delas estava madura. Colhi, e descobri que não estava doce. Um pouco ácida, como os meus experimentos nos tempos de alquimista.
Até que no fundo estava doce, mas bem lá no fundo mesmo. Como um bom produtor, tinha esperança de que as outras fossem melhores, e uma estava. Ou era o paladar tentando me confortar: “Essa não está tão ruim como as outras, fique tranquilo!”
Faltou adubo. Depois de eu ter colocado esterco de gado, de porco, de galinha, calcário, enxofre, e adubo químico. Mas faltou, o que eu coloquei não foi o suficiente. Precisava de mais potássio.
O nutriente que na teoria deveria ter sido absorvido do esterco de galinha e dos talos de bananeira. Agora eu penso: “Foi o potássio, mas é claro!” E nesse ano eu posso aplicar potássio com capricho. A dar com o pé.
Daí abre-se um leque de tantas outras coisas que ainda podem dar errado. Água de menos se eu ficar muito tempo sem regar. Água demais se chover bastante. O que é mais provável, porque até agora, as chuvas chegam a dar medo. Está bom para mofos e anfíbios, mas para nós, meros mortais, a luz do sol já é artigo de luxo.
Como em um ano em que ajudei meu tio em sua plantação de melancias. Íamos colher, cheios de empolgação, esperando melancias vermelhinhas e doces. Ao abri-las vinha a surpresa. Apesar de todos os sinais demonstrarem que estavam maduras, eram verdes de doer. Enquanto nós sofríamos, os animais do sítio festejavam.
Deixando de lado essa parte caótica do cultivo, posso mencionar que vale a pena. Regar e perceber cada nova folha das plantinhas, até se perder nas contas. Perceber elas deixando de ser redondas e ganhando o formato característico, como toda folha de pés de melancia. A água infiltrando na terra seca, e imaginar como as raízes devem estar se banqueteando em absorver a umidade.
Notar os galhos indesejados, que roubam a energia da planta, e cortá-los com cuidado para não ferir o ramo principal. Acompanhar as abelhas polinizando as flores, e logo em seguida o surgimento das pequenas frutinhas. Tão pequenas, frágeis e inofensivas. Nem parece que tempos depois, podem fazer um estrago se porventura caírem na cabeça de alguém.
As bolinhas vão crescendo, e é preciso colocar algo por cima para não queimarem com o sol. E algo por baixo também, para que a umidade não lhes apodreça. Às vezes surge uma em formato de coração, e eu só penso em como vão ser divididas as fatias. Todo dia é dia de ver como estão os pobres pés de melancia, um espetáculo diário. Daí chega a vez de colher, com a esperança de que os frutos estejam doces. Mas no fundo, pouco importa. Pois doces são os pés de melancia.
Espero que tenha passado momentos especiais lendo as divagações sobre as minhas desventuras e observações. O que acha de conferir a compilação de crônicas sobre acontecimentos da vida rural?
